gentileza gera gentileza.

Meu avô foi me buscar na escola hoje.  “A gente vai parar na casa de uma doceira, porque sua tia tá desejando doce de laranja desde ontem” . Balancei os ombros em sinal de indiferença e coloquei meu fones de ouvido a fim de fugir daquela música velha e chata que tocava no rádio. O cenário que eu via pela janela foi se transformando aos poucos. Prédios e ruas lotadas, pessoa correndo, concorrendo,  o frenético centro, sem freio, agitado, concorrido e conturbado foi dando lugar à casas e árvores. Vi o verde, vi sorrisos e violões.  Vi pessoas sentadas na calçada conversando sem medo de assalto e crianças brincando de bola numa praça. Não conesguia lembrar de ter brincado em praças. Resolvi tirar os fones de ouvido. A música que tocava agora era serena, harmônica e falava do sertão, de uma cidade simples, da simplicidade. Chegamos no lugar. Não tinha placas em neon porque a frase pintada no muro branco já era o suficiente: ‘Sítio gentileza’.

Meu avô saiu e tocou a campainha.  De dentro da casinha saiu uma velhinha sorrindo. Conversaram alguma coisa e entraram. O lugar era pequeno para um sítio mas emanava uma onda de positividade. Abaixei os vidros e pude sentir o cheiro de terra molhada, e observando a grama imaginei existirem milhares de plantinhas singulares ali.  Alguma força maior parecia me sugar, me chamar e como imã fui obrigada a seguir uma força invisível que me mandava sair do carro e tirar os sapatos. Toquei os pés no chão úmido  e não contive o sorriso. Aquele cheiro leve e despojado, mas ao mesmo tempo atraente, penetrava cada vez mais nas minhas narinas. Estava quase entorpecida, enxergava o verde cada vez mais vivo e os pássaros pareciam falar minha língua enquanto as árvores balançavam seus galhos numa reverência á qual eu respondia me inclinando para frente.  Aquele cheiro que me envolvia, que me dava vontade de sorrir e correr e gritar, era familiar, como se estivesse perdido dentro de mim há muitos anos e só agora pudera abraçá-lo de novo.

-Luisa, querida, vamos – meu avô falou sorrindo já dentro do carro com a compota de doce nas mãos. Olhei pro puro  azul  acima de minha cabeça e senti o vento batendo no meu rosto. Sim, aquele era o cheiro de gentileza.

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